“Você sente vontade de fazer cookies. Mas ninguém quer comer seus cookies.”
Não há nada mais natural em um jogo que o ato de mover o personagem, o aperto de botões para interagir com o ambiente e a atenção constante ao caminho a seguir, ao objetivo a ser cumprido e principalmente aos adversários que te impedem de avançar.
Este texto NÃO É sobre estes jogos.
Afinal de contas, um jogo incremental ou “Incremental Game” e até mesmo “Idle Game” nada mais é do que todo jogo que necessita de poucos movimentos do jogador, geralmente cliques, e o item gerado por esse clique permite ao jogador obter novos itens que incrementam o poder de cada clique. Dependendo do jogo e do item, em um certo ponto, nem o clique do jogador será necessário para avançar.
Essa mecânica, que mais parece ter saído de um laboratório de matemática, brinca com o conceito de crescimento exponencial: quanto mais recursos o jogador recebe, mais itens ele consegue, aumentando, assim, a quantia de recursos que o jogador recebe, até chegar a um momento em que a quantia de recursos recebida é simplesmente COLOSSAL.
O primeiro jogo incremental
O Progrress Quest foi o primeiro jogo a executar a ideia de um jogo automático e incremental, pelo que se tem registro
“As pessoas estão começando a falar sobre seus cookies.”
Para um jogo ser considerado incremental ele precisa de três elementos:
- Um item que, dentro do jogo, tem poder monetário, ou seja, pode ser usado para comprar outros itens;
- A possibilidade de aumentar a quantia destes itens;
- Que por si só, garante ao jogador MAIS itens;
O jogo mais antigo de que se tem registro a seguir esta fórmula é Progress Quest, de 2002. No caso deste jogo, o elemento principal, o qual gira em torno é a barra de progresso.
Sendo o jogo uma sátira aos MMORPGS populares da época, principalmente EverQuest, o jogo permite ao jogador criar um personagem para um mundo fantasioso, como os RPGs multiplayer. E esta é a única ação mais incisiva do jogador.
O personagem criado irá avançar pelo mundo por conta própria, batalhar contra outros monstros e obter itens que melhorarão seu status no mundo. E tudo isso será feito com quase nenhuma interação do jogador, que basicamente, só assiste, até que o personagem, sem espaço para mais itens, retorna a um mercado com os itens obtidos, em busca de novas habilidades.
Progress Quest ainda pode ser jogado, com o download do jogo em seu site oficial. Como toda boa paródia, o desenvolvedor, Eric Fredricksen nega que o jogo seja de fato, uma grande piada. No site oficial, ele descreve o jogo como fácil e intuitivo até para os jogadores novos: “Em breve, seu avatar irá buscar e destruir uma exótica panóplia de feras enquanto você observa orgulhosamente.
O que falta é a marcha tediosa da cidade, o labirinto desconcertante de ruas de cortador de biscoitos escondendo algum comerciante ou NPC específico, e a caça repetitiva pela fera certa para executar. Progress Quest fornece ao seu personagem uma série infinita de vítimas, bem como missões emocionantes que mantêm seu registro de missões cheio até a borda o tempo todo.”
Faça nada e Ganhe! O gênero se populariza com a sátira
A sátira do excesso de bots no Maple Story desenvolveu mais ainda os jogos incrementais
“Seus cookies valem muito dinheiro.”
Além de Progress Quest, outros jogos surgiram com o mesmo teor satírico, principalmente aos jogos de RPG Multiplayer Online. Muitas das críticas dos fãs que desenvolviam estes jogos era ao conceito de “grinding”: A repetição de uma certa tarefa dentro de um jogo para que se possa conseguir certos itens mais custosos.
O excesso de grinding em alguns destes jogos online provocaram a ira de fãs, que promoviam jogos com teor crítico a esta mecânica. E um dos maiores exemplos de Idle games, utilizados para se criticar um jogo foi Ayumilove's HackerStory v1, desenvolvido em Flash e publicado no site Kongregate, para criticar o grinding encontrado no jogo Maple Story.
A primeira onda dos Idle Games gerou grande popularidade entre os jogadores, mas também trouxe alguns críticos. Em um curioso episódio onde as sátiras foram satirizadas, em 2009, Anti-Idle foi lançado.
Anti-Idle foi o primeiro jogo do gênero a adicionar um grau de complexidade nunca visto nos demais jogos. Ainda seguindo a temática RPG, o jogo permite, logo de cara, que seu personagem avance de nível com poucos cliques, porém adiciona alguns elementos extras, com os quais, seu personagem pode aumentar a velocidade com o qual progride. Quanto maior o nível, mais itens você desbloqueia para seu personagem e assim, mais rápido poderá progredir e ganhar experiência.
Com vários fatores a serem levados em consideração enquanto progride pelo jogo, os fãs puderam, ao longo dos anos, montar estratégias que lhe permitem chegar a níveis mais altos, o mais rápido e efetivo possível. Algo que se tornaria padrão nestes jogos dali por diante.
Cow Clicker: O primeiro jogo a chamar a atenção
Cow Clicker se tornou popular tentando expor o abuso de jogos como FarmVille ou CityVille
“Reis e rainhas do mundo inteiro estão saboreando seus cookies.”
A partir do lançamento de Cow Clicker, em 2010, os Idle Games foram pavimentando o caminho para se tornar febre entre os jogadores casuais, cobrando o preço caro de destruir sua produtividade em casa, no trabalho, ou em qualquer lugar.
O jogo satiriza os famosos social games, que um dia foram populares nas redes sociais, como o Facebook. Jogos como FarmVille e CityVille apelavam para o público mais casual possível e de certa forma, era vista por desenvolvedores como algo feito sem esforço, com o único objetivo de ganhar dinheiro fácil em cima de jogadores dispostos a contatar seus amigos para continuarem jogando. Ian Bogost era um destes desenvolvedores.
Inconformado com os rumos que os jogos, muitos destes desenvolvidos pelo estúdio Zynga, estavam tomando, Bogost desenvolveu Cow Clicker como um alerta aos jogadores para os perigos da monetização acima da arte de se criar jogos.
Os jogos da Zynga se tornaram infames pelas várias solicitações que seus amigos poderiam enviar para permanecer jogando, e também pelo advento das microtransações, incentivando estes jogadores casuais a desembolsar uma quantia em dinheiro para continuar a jogar, com resultados controversos.
Usando e abusando das mesmas funcionalidades destes jogos, Cow Clicker dá a você um pasto e uma vaca. Um clique na vaca, dado a cada seis horas é um ponto. Você pode solicitar aos seus amigos mais vacas e desta forma, dentro das seis horas, você tem direito a mais pontos, por ter mais vacas para clicar.
O jogo, que era para ser uma forma de protesto, curiosamente se tornou um dos jogos mais populares do Facebook naquele período. O completo oposto do que Ian Bogost realmente queria: "Eu não pretendia tornar isso divertido. Os jogadores deveriam reconhecer que clicar em uma vaca é uma coisa ridícula de se querer fazer."
Cookie Clicker e a era de ouro dos jogos incrementais
Cookie Clicker e Candy Box são dois exemplos de jogos que originalmente eram simples e se tornaram grandes referências do gênero
“Criaturas estranhas de planetas vizinhos desejam experimentar seus cookies.”
No ano de 2013, mais um idle game, Candy Box! Foi lançado, com gráficos em ASCII e toda uma história elaborada em redor da sua jornada incessante por mais e mais doces.
O jogo causou um certo burburinho entre os jogadores, que buscavam entre si meios de multiplicar a quantia de doces que tinham em mãos, em meio a negociações com um mercante misterioso, fazendas de pirulito e passeios para lugares distantes por mais doces.
Da noite para o dia, os fãs de idle games trocaram os doces por cookies.
No mesmo ano de 2013, o desenvolvedor francês Julien Thiennot, conhecido popularmente como “Orteil”, desenvolveu em apenas um dia Cookie Clicker. O jogo, inicialmente divulgado no controverso fórum 4Chan, tornou-se um sucesso imediato, alcançando mais de 50 mil jogadores em sua primeira semana no ar.
Assim como outros jogos, Cookie Clicker lhe dá a chance de produzir cookies, que são moeda de troca para itens que aumentam a produção de cookies. A fama do jogo está no humor característico de um mundo que aos poucos, passa a rodar em torno de centenas, milhares, milhões, quintilhões, decilhões, septendecilhões de cookies. E os números aumentam ainda mais.
É claro que Cookie Clicker utiliza-se de si próprio para trazer uma critica a sociedade atual, cada vez mais consumista e focada em um ritmo de produção incessante, do tipo que pode destruir o planeta um dia. Ou transformá-lo em mais cookies. Afinal, no jogo, você é capaz de abrir portais para outras dimensões cheios de cookies, trazer cookies do passado para o presente, transformar antimatéria em cookies e até mesmo criar cookies a partir do acaso, de outros cookies, de cérebros do tamanho de planetas... e de você.
A conclusão final do jogo é que você é capaz de criar tantos cookies que para ir além do que já é produzido, só existindo mais de você no mundo.
Sucessos e controvérsias
Bit City, Sonic Speed Simulator e Banana são exemplos de diferentes ramificações atuais do gênero
“O universo agora se transformou em massa de cookie, em nível molecular.”
A repercussão de Cookie Clicker ecoou por toda a comunidade gamer, com relatos de estratégias, modos de sobreviver ao “Vovópocalipse”, reclamações pelas horas de trabalho perdidas e até de possíveis danos ambientais, com computadores ligados dia e noite, apenas para produzir cookies virtuais.
Sobre a fama do jogo, Orteil declarou em uma entrevista para a Vice: “Não era para ser divertido! Nós apenas exploramos o apelo psicológico central por trás de muitos jogos: fazer algo. A vida é uma bagunça confusa onde o progresso é frequentemente pouco claro e pouco recompensador, mas os videogames tornam os objetivos muito mais explícitos; para idle games, é tão básico quanto fazer um número subir.”
Com o passar do tempo, diversos outros jogos surgiram: alguns mantiveram a proposta de satirizar o próprio gênero, enquanto outros buscaram conquistar o público casual. Títulos como AdVenture Capitalist, Make It Rain: The Love of Money, A Dark Room e Universal Paperclips alcançaram sucesso relativo entre os fãs de jogos incrementais.
Nos dias atuais, é possível encontrar elementos de idle games em alguns jogos, em alguns casos mesclando com as temidas microtransações, a qual jogos como Cow Clicker tanto criticavam.
BitCity é um destes jogos, que mesclou com sucesso o Idle Game com a simulação de gerenciamento de cidades, utilizando-se das moedas que você obtém com o tempo para construir novos prédios, que por si só, lhe dão mais moedas. Quanto mais moedas, maior a cidade fica e assim, mais moedas pode conseguir para itens mais caros.
Grandes nomes também entraram na onda dos Idle Games, com o exemplo mais recente sendo a Sega, que em 2022 lançou, dentro de Roblox, Sonic Speed Simulator. O jogo permite que você controle Sonic, que pega itens chamados de “Orbes do Caos”. Quanto mais desses orbes, mais itens podem ser comprados para Sonic ser ainda mais veloz, o que lhe permite pegar mais orbes.
Mesmo assim, alguns destes jogos utilizaram desta mecânica simples (e de certa forma repetitiva) para conseguir dinheiro fácil, causando certa polêmica entre os fãs. Banana, lançado em abril de 2024 na Steam, utiliza-se desta mecânica para periodicamente dar aos jogadores itens que podem ser vendidos na Steam.
Sendo muitas vezes comparado ao igualmente controverso NFT, o jogo dá inúmeros tipos de bananas para o jogador, com relatos de alguns destes custando até mais de 1 mil dólares.
Logo, jogadores passaram a, assim como fazem com criptomoedas, minerar mais e mais bananas, com a finalidade de revendê-las na plataforma, com muitos bots envolvidos no esquema. Como uma parcela desses valores vai para o bolso dos próprios desenvolvedores, há suspeitas de que tudo isso seja intencional, como uma forma de ganhar dinheiro rápido e fácil.
O Céu é o Limite... Ou nem mesmo isso!
Os jogos incrementais se tornaram febres em diversos formatos, alguns para dinheiro rápido, outros como sátira e até como longas aventuras.
“Seus cookies estão reescrevendo as leis fundamentais do universo.”
Em resumo, os Idle Games surgiram como uma forma de satirizar jogos que exploram o uso de microtransações, mas o sucesso de Banana e até mesmo a involuntária popularidade de jogos como Cow Clicker e Cookie Clicker mostram que até mesmo jogos criados para criticar podem, eventualmente, se tornar tudo aquilo que desprezavam.
Por outro lado, muitas das mecânicas dos Idle Games são vistas em títulos de todos os tamanhos, o que faz com que esses elementos estejam cada vez mais presentes no universo dos games.
De qualquer forma, o mais importante neste momento é saber quando parar, antes que esses jogos comecem a consumir horas do seu tempo.
“Uma emissora de notícias local exibe um segmento de 10 minutos sobre seus cookies. Sucesso!”