Em maio de 1995, durante a E3, o responsável pelo PlayStation nos Estados Unidos, Steve Race, subiu ao palco e anunciou o seguinte valor: 299$.
Esse momento ficou marcado como o instante em que a Sony entrou na disputa pelo domínio do mercado de games, deixando um concorrente comendo poeira logo na primeira curva.
NINTENDO PLAYSTATION: OS PRIMEIROS PASSOS
O primeiro console da PlayStation tem uma história triste e que quase levou ao fim prematuro da história da Sony nos videogames
A Sony não desejava entrar no mercado de games por completo, mas viu em um nome já estabelecido no setor uma oportunidade de expandir seus negócios.
Em 1991, Nintendo e Sega viviam intensamente a primeira guerra de consoles em escala global. As vendas do Mega Drive enfrentavam o marketing do recém-lançado Super Nintendo, que avançava a passos largos para se equiparar ao número de vendas de seu concorrente.
O lançamento do Sega CD fez com que a Nintendo se preocupasse em ter um acessório próprio que também rodasse CDs. Assim, suas atenções se voltaram para a Sony, por meio de Ken Kutaragi. A empresa esteve por trás do desenvolvimento de um chip especial para o SNES, responsável pelo processamento de áudio do console, o que facilitou as conversas entre as duas empresas.
As negociações desandaram quando ambas começaram a disputar quem seria o dono das licenças para CD e quem controlaria o Super NES CD-ROM, como o protótipo era chamado. Ficou decidido que as mídias para o console seriam chamadas de “Super Discs”, e, em um acordo ao qual a Nintendo inicialmente consentiu, mas depois voltou atrás, a Sony ficaria com os direitos de fabricação do periférico e com os lucros das vendas dos Super Discs. Em resumo, todo jogo lançado para o periférico beneficiaria a Sony, e não a Nintendo.
AMBIÇÃO, TRAIÇÃO E MANIPULAÇÃO: A SONY CAMINHA SOZINHA
Os pais do PlayStation quase foram desbancados em frente à situação que a Nintendo deixou a Sony com sua atitude ao optar pelas costas pelo projeto de Philips CD-I
Sentindo-se traída pela decisão da Nintendo de encerrar a parceria, trocando-a secretamente pela Philips (em um acordo que também fracassou), a Sony precisou ser convencida a entrar sozinha no mercado de consoles. Após muita insistência de Ken Kutaragi e do executivo norte-americano Phil Harrison, a empresa decidiu prosseguir sozinha com o desenvolvimento de um novo console.
Em entrevista à Videogames Chronicle, Phil descreveu o processo de convencimento sobre a viabilidade do PlayStation:
“A principal razão pela qual a marca Sony não foi realmente usada no marketing inicial do PlayStation não foi necessariamente por escolha, mas porque a velha guarda da Sony estava com medo de que isto destruísse essa marca maravilhosa e venerável, de 50 anos. Eles viam a Nintendo e a Sega como fabricantes de brinquedos, então, por que diabos se juntariam ao negócio de brinquedos? Isso mudou um pouco depois que entregamos 90% do lucro da empresa por alguns anos.”
A equipe de Ken Kutaragi, sem espaço em nenhum departamento da grande corporação que era a Sony, foi realocada para a Sony Music, a única com experiência suficiente para atender à futura demanda de CDs para o novo console. Enquanto isso, a companhia utilizava-se de seu pequeno estúdio de jogos, a Sony Imagesoft, para obter mais conhecimento sobre desenvolvimento de jogos, especialmente com o Sega CD, com quem o estúdio manteve uma breve parceria. Com o lançamento do console, o estúdio se tornaria a 989 Studios, famosa por Twisted Metal, Syphon Filter e Jet Moto.
Com uma política mais aberta do que a da Nintendo em relação à produção de jogos, o console foi bem recebido pelos desenvolvedores, que poderiam finalmente decidir quantas unidades de seus jogos seriam produzidas, além de definirem os locais onde seriam vendidos. Também foi dada uma certa liberdade para jogos mais maduros, o que a longo prazo ajudou na popularidade de jogos como Resident Evil e Grand Theft Auto.
Outro fator que chamou a atenção dos estúdios foram os gráficos 3D de última geração que o console foi capaz de apresentar. A principal inspiração para os desenvolvedores foi Virtua Fighter, arcade de 1993 da Sega, que marcou um novo avanço tecnológico no desenvolvimento de games em três dimensões. A própria Sega não considerou Virtua Fighter ao desenvolver o Sega Saturn, o que colocou o PlayStation em vantagem antes mesmo de os dois consoles serem lançados.
A NOVA SENSAÇÃO DO MERCADO
Sony gerenciou os riscos e obteve o sucesso inabalado : o PlayStation.
Em 1994, as expectativas eram altas para o lançamento do PlayStation no Japão. Uma grande campanha de marketing anunciava a data do grande lançamento: 3 de dezembro. Ou, como foi promovido pela Sony: 1, 2, 3!
Enfrentando a descrença da própria Sony, que chegou a abertamente dizer para Ken Kutaragi que o console fracassaria, o aparelho conseguiu vender todos os seus 100 mil exemplares no primeiro dia, com mais 200 mil vendidos ao longo daquele mês de dezembro. Era o sinal de que um grande sucesso estava a caminho. Foi nesse cenário que Steve Race, que já tinha experiência no mercado trabalhando para a Sega e a Nintendo, entrou para a Sony, tornando-se um dos responsáveis pelo console no Ocidente.
Em maio de 1995, durante a E3, o responsável pelo PlayStation nos Estados Unidos, Steve Race, subiu ao palco e anunciou o seguinte valor: 299.
Como mencionado no início deste texto, esse preço foi uma das principais razões para o sucesso do PlayStation nos Estados Unidos e na Europa, deixando para trás o Saturn da Sega, que enfrentava dificuldades nas vendas.
Nos Estados Unidos, foi preparada uma grande campanha que buscava atrair não crianças e adolescentes, mas sim o público jovem adulto, posicionando-se como uma opção mais madura em relação aos concorrentes. Até o final de 1995, o PlayStation atingiu a marca de 1 milhão de consoles vendidos, expandindo esse número para 100 milhões ao longo de seus anos no mercado.
O SEGREDO PARA O SUCESSO
Os grandes sucessos como a franquia Crash Bandicoot, Metal Gear Solid, Resident Evil, Castlevania e Final Fantasy trouxeram grande sucesso para a PlayStation
Diversos fatores contribuíram para o sucesso do PlayStation. Os gráficos 3D de ponta, o marketing eficaz e o preço competitivo foram apenas três pilares do êxito do console da Sony.
O quarto, e mais importante, pilar foram os jogos lançados para o console, com inovações jamais vistas antes. Grandes sucessos como Metal Gear Solid, Final Fantasy VII, Crash Bandicoot, Gran Turismo, Tekken, Silent Hill, Tony Hawk's Pro Skater, Tomb Raider e Castlevania: Symphony of the Night foram essenciais para manter o PlayStation à frente da concorrência.
No total, o console acumulou cerca de 7.900 jogos de variados tipos, tamanhos e gêneros, agradando a todos os públicos, desde crianças até adultos, tornando-se uma referência tanto para bons jogos quanto para os nem tão bons.
Com mais de 100 milhões de unidades vendidas em todo o mundo, contra 33 milhões do Nintendo 64 e apenas 9 milhões do Sega Saturn, o legado do PlayStation se estende até os dias atuais, com a quinta versão sendo a representante atual da marca, consolidando a Sony como um dos grandes nomes da indústria.
No final, a Sony conseguiu tomar o lugar de nomes que antes eram dominantes no mercado e que, de um jeito ou de outro, pensaram que a Sony não iria muito longe. Como o slogan utilizado na Europa bem descreveu: Não subestime o poder do PlayStation.